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Michael Doohan - A lenda


Nosso destaque desta semana é um ícone do motociclismo e detentor de cinco títulos mundiais somente na categoria máxima, a 500cc (hoje MotoGP) e pilotando uma Honda, e isso consecutivamente, de 1994 a 1998, o australiano Michael Doohan. Entre seus recordes, venceu três corridas do Mundial de Superbike como convidado, se tornando um dos poucos a realizar esse feito. Estreou nas 500cc em 1989 e dois anos depois foi contratado pela Honda oficial, para ser companheiro de equipe de outra lenda do motociclismo, Wayne Gardner. Em 1999, sofreu um grave acidente – fraturou a perna – e decidiu abandonar o Mundial. E passou a trabalhar como consultar da Honda, até 2004. Em sua carreira, ele coleciona 54 vitórias em GPs e 95 poles.

Doohan tem acompanhado o Mundial e nesta entrevista comenta sobre a modernidade no esporte e sobre Marc, que no último GP da Austrália o homenageou usando botas e luvas, criadas pelo seu patrocinador, com as cores da moto do australiano. Isso porque Marc tinha até aquela data cinco títulos, como Doohan.

MA – O que você acha da MotoGP atual, com todos tendo os mesmos pneus, muita eletrônica etc.?

DOOHAN – Eu acho fantástico! A Dorna fez um ótimo trabalho, especialmente o Carmelo Ezpeleta (CEO da empresa). Adoro conversar com ele, porque está sempre um passo à frente. Ele administra o esporte muito bem. Se olhar para os fãs que vão aos circuitos e para o público da televisão, está funcionando muito bem. Os bons pilotos poderiam andar sem qualquer eletrônica, mas eles conseguem ir ao limite das quedas perdendo aderência no pneu dianteiro e forçando o limite do pneu, em vez de correrem risco de um "highside" ao virar o acelerador. É mais seguro e, ao mesmo tempo, com a mesma eletrônica, é mais fácil para todos gerenciar a potência do motor.

Você tem um filho que está no automobilismo. Como é ter um filho competindo?

Ele é como um piloto de 16 anos no campeonato espanhol de motovelocidade que quer chegar à MotoGP. Acho que você precisa ter um sonho. Ele está vencendo corridas e é rápido, mas tem apenas 16 anos (NR: Jack Doohan tem agora 17 anos). Acho que sou aquele que tem colocado algumas das ideias que ele tem em sua mente, ele tem a mesma mentalidade de nunca desistir. E não fica feliz quando termina em segundo, mas acho essa é dele. Ele fica irritado quando não vence, se esforça nos treinamentos e se automotiva, mas no final do dia é apenas um garoto.

Para mim é legal ser pai de piloto, gosto de esportes a motor. Sendo meu filho, sinto um pouco de adrenalina quando ele está na pista, mas eu não tento invadir seu espaço. Obviamente que fico um pouco preocupado com isso ou aquilo, assim como o pai de Marc e outros pais no paddock. Ele parece bastante sensato e não teve muitos acidentes. No entanto, como acontece no Espanhol de Motovelocidade, o nível sobe exponencialmente e a competitividade é muito maior à medida que se avança nas várias séries.

Você tem cinco títulos na principal categoria e Marc acumula seis, ambos sempre acelerando uma Honda…

Eu sempre acompanho a prova em Phillip Island e todo mundo compara nossos títulos, por causa do número. Nós dois vencemos títulos com a Repsol e com a Honda, existem muitas semelhanças. As minhas conquistas foram há muitos anos, mas é bom ser lembrado dessa maneira, mesmo que signifique muitos pedidos de entrevista, além de outros compromissos que eu já tenho. Estou muito feliz por poder fazer tudo. Não é incômodo para mim, é simplesmente uma questão de encontrar tempo e uma maneira de fazer tudo.

O que pensou quando soube que Marc usaria suas botas e luvas no GP da Austrália?

Foi fantástico! Ele me pediu permissão para usá-los, e é claro que disse que podia. Foi uma honra ele lembrado de mim na corrida na Austrália.

O que significou para você ver Marc conquistar títulos com a Honda, como você conquistou?

Achei fantástico. É bom para o esporte e é bom para a fábrica. Trabalhar para a Honda foi fantástico para mim. Eles me deram uma plataforma que me permitiu vencer. Eu não precisava de nenhuma motivação extra para continuar acelerando ano após ano, uma vez que eles me garantiam o compromisso de continuar testando a moto, de melhorará-la e trazendo o que eu queria. Se eu tivesse precisado de motivação para mudar a cor da minha motocicleta, talvez fosse hora de me aposentar. Nem todo mundo pensa assim, mas acho que é bom, para ambas as partes, ter uma associação sólida com uma única fabricante.

O que mais lhe impressiona em Marc, os títulos ou o jeito que pilota?

Eu acho que as duas coisas estão ligadas. Sua pilotagem é impressionante, não há dúvida sobre isso. Ele torna a corrida emocionante para todos que assistem, inclusive eu. Mas se ele não pilotasse assim, não teria conquistado esses títulos. Ao mesmo tempo, é o que deixa os fãs grudados na televisão. Temos visto uma grande temporada de corridas, com muitos pilotos na frente e muita luta pela vitória, o que nos rendeu corridas incríveis. Sempre tento assistir às corridas, inclusive a qualificação, e felizmente posso ver onde quer que eu esteja, mesmo que no meu celular. Tem havido muita emoção e Márquez fez parte disso. Ele é uma das atrações da MotoGP, todos querem ver o que vai acontecer, mas ninguém sabe o que vai acontecer até a última curva.

Qual é a melhor qualidade de Marc?

Acho que a sua determinação. Seu compromisso de nunca desistir, sua vontade de competir. Alguns dizem que ele é muito agressivo, mas todo piloto é. Quando você está sempre no limite, às vezes não há muito espaço para erro e, infelizmente, haverá contato. Sempre houve contato, cotoveladas e movimentos um pouco agressivos. Antigamente, nem tudo era registrado pelas câmeras de televisão. Agora é como um jogo de futebol, não se pode fazer nada escondido. Se você não é agressivo, não vence. Parece que Marc tem determinação e desejo de vencer maiores do que os demais pilotos.

Consegue imaginá-lo em uma motocicleta de 500 cc?

Tenho certeza de que ele não teria problemas em uma moto de 500cc. Grandes pilotos como ele, como vimos Valentino e outros, são capazes de se adaptar à moto que possuem. Já era assim no meu tempo. Pilotos mudaram de fabricante, mas os resultados foram os mesmos. O piloto, a parte orgânica da moto, é o que normalmente faz a maior diferença. Marc poderia ganhar praticamente com todas as fábricas.

Você se vê em algumas das coisas que Marc faz?

Seria louco se dissesse isso! Não, são épocas diferentes. Podemos dizer a vontade de vencer e de nunca desistir são semelhantes. Penso que o Marc e outros pilotos, como o Valentino, entram na corrida querendo ganhar, independentemente da posição da largada. Nunca entrei em uma corrida pensando em terminar em segundo lugar. O objetivo era sempre vencer, e se isso não fosse possível, então o próximo pensamento seria a melhor posição. Mas eu sempre pensava em ganhar.

Consegue imaginar competindo com ele?

Sim. Mas se ele estivesse competindo no meu tempo, ele pensaria: "Quem é Mick Doohan? Apenas um piloto contra quem vou competir", assim como pensa hoje. Foi o mesmo comigo. Quando se vai competir, para vencer, a mentalidade é a mesma. Foi assim no meu tempo, 20 anos antes, com Agostini vindo antes de mim e fui questionado sobre ele.

Você competiu com Alberto Puig. Como você vê o papel dele como chefe da equipe Repsol Honda?

Alberto é um piloto, e é isso que uma equipe precisa. Você precisa de alguém inteligente, com bom conhecimento da competição, mesmo que não seja um piloto. Lembro que, quando competi, ele era um piloto rápido, forte e determinado, mas sempre foi muito calculista. Nós o vimos trabalhando com jovens pilotos por muitos anos, como Dani Pedrosa, e acho que ele trouxe essa experiência para a equipe, o que foi um grande passo à frente. Pelo menos os pilotos da equipe não têm a barreira da língua, como aconteceu comigo.

Marc tem apenas 26 anos de idade. O que podemos esperar dele no futuro?

Depende dele. Ele tem apenas 27 anos e se não se machucar, manter-se em forma, forte e saudável e mantiver o desejo de pilotar, mesmo que se aposente com 30 anos, ele poderá ganhar mais dois, três ou quatro mundiais. Estatística é algo que não se pensa enquanto compete, embora seja importante para a mídia. Se tudo continuar como tem feito ao longo de sua carreira, ele tudo fará para vencer. Então, se ele competir por mais cinco anos, ele poderá ganhar outros cinco títulos. Mas se ele continuar até os 35 anos, quem sabe?

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